Conserto que entorta
Começa com um incĂ´modo: aquele desconforto agudo que sinaliza algo fora do lugar. Pode ser uma irritação, uma queimação, algo que a maior parte do tempo nĂŁo perturba. AtĂ© que vocĂŞ precisa forçar a barra, esticar-se um pouquinho mais, e aĂ... dĂłi.
Mas tudo bem: você não precisa se esticar o tempo todo, precisa? Não dá para viver a vida sem fazer aquela uma coisa que não está exatamente certa? Dá, então pronto: continua-se assim. Alguns mais certinhos logo apontam o risco que você corre de se acostumar com a situação. Chatos, eles. Pois não vêem que é tão simples, é só não virar a cabeça praquele lado, e pronto, sumiu o problema? E se você se acostumar, e da� Há males maiores. Dadas as alternativas, você está bastante bem.
A capacidade de tolerar incômodos, mesmo os auto-infligidos, pode parecer uma bênção, mas é um mal que só faz se agravar. Diabo de cérebro que sempre arranja desculpa, sempre encontra uma estorinha pra contar pra si mesmo que parece fazer sentido.
Porque, como uma árvore que cresce torta sob a força do vento, com seu centro de massa cada vez mais fora do prumo atĂ© que um dia o tronco cede e a árvore se parte, o indivĂduo que aceita um desconforto aqui, outro ali, e se acostuma a funcionar com eles, logo, logo se descobre completamente torto. IrreconhecĂvel, talvez.
AtĂ© que o sistema estala. E o estalo vem certeiro, porque existe uma coisa chamada fĂsica: o conjunto de propriedades inflexĂveis inerentes aos sistemas, porque eles sĂŁo feitos assim e pronto. A resistĂŞncia máxima de um tendĂŁo, o ponto de ruptura do concreto, a capacidade de operação de uma UTI, o nĂşmero de horas que um enfermeiro precisa dormir ou o nĂşmero de calorias que sustentam um humano por dia sĂŁo o que sĂŁo. Chegando ao limite, nĂŁo há perdĂŁo. Falar em “leis” da fĂsica nessa hora faz perfeito sentido.
Conserto que não é conserto de verdade entorta aos poucos, mas quando estala, dói pra valer. Ao menos a dor força o fim do estado de negação.
A vida é a arte do auto-organizado, para o bem e para o mal, mas tolerância tem limite. Cérebro e corpo, sociedade e economia se adaptam, se ajustam, se ajeitam conforme usos e abusos – mas, com abuso demais, um dia quebram.
Ainda bem que do outro lado do estalo existe a fisioterapia, a medicina, a enfermagem, o estaleiro, a CPI, o comitĂŞ de recuperação, a urna eleitoral. Tudo o que nĂŁo Ă© fĂsica tem jeito – desde que se reconheça o estrago.
ExtraĂdo de Suzana Herculano-Houzel (2025) NeurociĂŞncia da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de SĂŁo Paulo em maio de 2021.