Fazer o bem é bom

Semana passada minha filha fez aniversário e, como de hábito há alguns anos, fiquei procurando como deixá-la especialmente feliz para celebrar a data. Decidimos sair para fazer comprinhas para ela, e depois levar duas amigas da escola para uma festa-do-pijama lá em casa. De roupa nova e olhinhos travessos radiantes, ela veio nos comunicar, escoltada por suas amigas, que “só iam dormir à meia-noite” – horário ousado para quem acabou de fazer sete anos –, e lá se foram para o acampamento montado na sala. Por mim, está ótimo: se ela está feliz, eu estou feliz.

Meu lado neurocientista-de-plantão não deixa o evento passar em branco, é claro. Por que dar presentes é tão bom? A felicidade da minha filha ao recebê-los mexe comigo desde quando ela ainda era pequenina: seu “Pa mim? Aaah... muuuuuto bigada, mamãe!” fazia meu cérebro dar pulinhos e ficar todo mole por dentro. Ou, em termos mais científicos, o sorriso dela fazia meu cérebro, por pura imitação, sorrir também, e ficar feliz por empatia. O bem que fazemos aos outros retorna ao nosso cérebro quando vemos o resultado estampado no rosto alheio: fazer bem aos outros acaba nos fazendo bem também, ainda que isso nos custe dinheiro.

Mas não é só isso. Jorge Moll, neurocientista brasileiro em pós-doutoramento nos EUA, acaba de publicar um estudo onde mostra que a simples decisão de fazer o bem, muito antes de provocar qualquer sorriso alheio, já envolve a ativação do sistema de recompensa do cérebro. Decidir fazer o bem dá prazer. E mais: o córtex subgenual, uma área envolvida na formação de laços afetivos, também participa de decisões altruístas, e deve nos fazer criar vínculos com o objeto das nossas boas ações. Meu cérebro certamente cria vínculos enormes com minha filha quando pensa na felicidade dela.

Claro que é possível olhar para os dados com outra lógica. Talvez a gente só decida fazer o bem, mesmo a nossos filhos, porque isso dá prazer a nós mesmos. Esta é a visão cínica, ou ao menos cética, do altruísmo: todo ato altruísta teria um fundo de interesse próprio.

Eu prefiro pensar que poderia ser diferente. Prefiro pensar que meu cérebro poderia não dar a mínima para a felicidade da minha filha e não ter o sistema de recompensa ativado nem antes, nem depois de eu decidir deixá-la feliz. Mas não é assim. Meu cérebro tem a capacidade sensacional de deixar minha filha feliz e, de quebra, ainda ficar feliz com isso. Para mim, está ótimo.


Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em novembro de 2006.

Próximo
Próximo

Brincadeiras para o cérebro