Não olhe para cá
Tem coisas que acontecem que são impossíveis de não parar tudo para olhar. Acidente de carro na pista contrária. Sedes de governo invadidas. Países inteiros anunciando lockdown (de novo). Presidente Laranja bloqueado nas redes sociais. Estado vermelho virando azul e tomando o Senado.
Que tem um componente cognitivo por trás de decisões de interromper a atividade do momento para olhar para o que os outros estão olhando é claro: compreensão prévia sobre por que a notícia é notícia, ou, ao contrário, desdém prévio pelo assunto, são fatores cruciais que determinam se o novo assunto é digno de atenção. Mas um dos fatores mais fortes é simplemente se há alguém à vista dando bola. Somos craques em olhar para onde os outros estão olhando. Seria isso uma capacidade cognitiva, também, do tipo que requer que se pense a respeito?
Se for, então macacos também pensam um bocado. Como nós, eles olham para onde outros estão olhando, e simplesmente porque os outros estão olhando. A diferença é que para humanos, ver para onde os olhos alheios apontam já basta; macacos, sem o branco do olho proeminente como o nosso, seguem a direção da cabeça dos outros (e pronto, morreu a lenda de que “o branco do olho humano surgiu para indicar o foco de atenção”... mas essa já é outra estória).
Mas pensar a respeito não é sequer necessário. Olhar para onde os outros olham é um comportamento automático, inato, que requer supervisão atenta e consciente para ser suprimido. Recentemente, dois pesquisadores na Universidade de Tübingen, na Alemanha, descobriram que macacos têm uma região no córtex temporal posterior, debaixo das orelhas, que representa a direção da cabeça de outros macacos. Esta região é vizinha a outra já conhecida cujos neurônios reconhecem rostos, mas esta vai além: a direção do rosto do macaco visto é o que determina a atividade dos neurônios.
Por que isso importa? Porque o que acontece em seguida muda tudo: esses sistemas cerebrais que detectam que há algo digno de nota – ou porque aconteceu subitamente, ou porque nossos semelhantes estão olhando para lá – temporariamente prevalecem e fazem com que o cérebro mova os olhos para aquele assunto. O que é fundamental, porque é só vertendo o olhar para o objeto de interesse que este é visto pela fóvea, a parte central da retina, e a única do olho que realmente enxerga com resolução suficiente para sabermos o que estamos vendo.
Infelizmente, processar o que o outro está vendo e decidir se é ideia boa a imitar, ou besteira a registrar e jamais fazer igual, não é automático. Ah, se bastasse olhar para entender...
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2026) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em janeiro de 2021