O sexto sentido
Qual é o sentido que você mais lamentaria perder? A visão, provavelmente. No entanto, é possível viver muito bem quando os olhos não mandam sinais ao cérebro. O sentido que realmente faz falta, a ponto de tornar os outros inúteis quando ele não funciona, só agora começa a ser incluído nos livros escolares: o equilíbrio.
Esse sentido, que começa nos órgãos vestibulares (o labirinto e outros dois órgãos auxiliares na orelha interna, chamados sáculo e utrículo), permite ao cérebro detectar a posição estática da cabeça e também sua aceleração, ou seja, a passagem da inércia ao movimento, nos três eixos do espaço. Com essa informação, o cérebro orienta o corpo em relação à posição da cabeça e à gravidade. Assim é possível ficarmos de pé, eretos, mesmo de olhos fechados e quando o chão é irregular e incerto.
Ficar de pé é um feito e tanto do cérebro, que precisa promover em permanência pequenos ajustes nos músculos das pernas e do tronco, com base nos sinais do equilíbrio, para manter o corpo aprumado. Experimente ficar de pé com as pernas unidas, os braços ao longo do corpo e os olhos fechados, e você notará que ficar parado sem cair requer uma série de pequenos movimentos, pequenas correções que trazem nosso centro de massa de volta para a área dos pés.
Lutar contra a gravidade é, portanto, um trabalho constante do cérebro, quase impossível sem o sentido do equilíbrio, como descobre quem tem labirintite. Uma outra função do equilíbrio, no entanto, é mais inusitada: permitir que os olhos se mantenham fixos sobre um ponto enquanto fazemos qualquer movimento que altere a posição da cabeça. Quem se encarrega disso é o cerebelo, que recebe em primeira mão sinais dos órgãos vestibulares sobre o deslocamento da cabeça e promove movimentos compensatórios dos olhos no sentido oposto e na medida exata para manter constante a direção do olhar.
Essa compensação automática, chamada de reflexo vestíbulo-ocular, permite por exemplo que você consiga ler esta página enquanto sacode a cabeça – o que você não consegue se mantiver a cabeça parada enquanto sacode o jornal (tente!). Imagine agora que esse reflexo opera continuamente enquanto você anda na rua, senta, deita, levanta ou corre: o equilíbrio é o sentido que estabiliza nossos olhos. Sem ele, as imagens do mundo deslizariam em permanência sobre os olhos, e a visão seria tão nauseante quanto um vídeo ruim gravado por uma câmera que não pára de se mover...
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em novembro de 2007