Acordando sem forças

Talvez já tenha acontecido com você. De manhã, deitado na cama, seus olhos se abrem e vêem o quarto ao redor; o cérebro registra os sons da rua; você sabe que está acordado... mas seu corpo se recusa a sair do lugar, totalmente paralisado. A experiência pode ser aterradora. Felizmente, em não mais que um minuto seu corpo volta a obedecer ao cérebro. O fenômeno também existe na versão branda: você acorda, levanta... mas não tem força para abrir o tubo de pasta de dente, muito menos o pote de geléia.

Por mais bizarro e improvável que pareça, o episódio de paralisia-do-despertar é conhecido da ciência e tem nome. Chama-se cataplexia, pode acontecer ocasionalmente em pessoas normais, sobretudo na versão branda, e é comum em pessoas e cachorros que sofrem de narcolepsia, ou doença do sono. A cataplexia demonstra um aspecto fundamental do funcionamento do cérebro: sono e vigília são controlados por vários “botões”, e não apenas um que, ao ligar o sono, automaticamente desligasse a vigília e vice-versa. Uns botões mantêm a vigília, alguns ligam o sono sem sonhos, outros ligam a fase de sonhos – e um em particular desliga os movimentos do corpo durante os sonhos.

É isso mesmo: enquanto sonhamos, temos o corpo inteiramente paralisado, à exceção dos músculos dos olhos e dos que fazem a respiração. Nesse estado, o cérebro cria ordens para mover o corpo de acordo com o conteúdo dos sonhos, envia essas ordens para os neurônios da medula que controlam diretamente os músculos – mas as ordens não são executadas, pois outra parte do cérebro silencia esses neurônios motores. O resultado é um corpo flácido, imóvel na cama.

Em geral, os vários botões que controlam o ciclo sono-vigília falam uns com os outros, e todos os sistemas do sono são desativados ao mesmo tempo quando passamos à vigília. Pode acontecer, no entanto, de o sistema que mantém a paralisia dos músculos durante os sonhos ficar para trás por alguns instantes, ainda ativado quando já deveria ter sido desligado. Até que isso aconteça, tem-se um cérebro consciente – mas que só consegue obter respostas fracas dos músculos, se é que consegue.

É verdade que bloquear os movimentos durante os sonhos parece uma péssima idéia. Mas tem lá suas vantagens: além de ser relaxante, a paralisia do sonho é o bendito fenômeno que impede que você caia da cama, grite ou desfira socos e chutes enquanto sonha que briga com o ladrão. Seu vizinho de cama agradece...


Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em março de 2008

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Para manter o equilíbrio