Para manter o equilíbrio

Quanto tempo você consegue se equilibrar sobre um pé só? Se você tem menos de 50 anos, a tarefa deve ser fácil, e você chega a uns 30 segundos. Entre 50 e 60, talvez você se mantenha em pé por uns 20 segundos. Entre os 60 e 70 anos, a média já cai para 10 segundos; dos 70 ao 80, diminui para uns 4 segundos. Acima dos 80 anos, a maioria dos velhinhos simplesmente não consegue.

As causas da perda com a idade da capacidade de manter o equilíbrio são óbvias, depois que se atenta para elas, mas suas conseqüências para a qualidade de vida são sérias e pouco apreciadas. A boa notícia, no entanto, é que toda hora é hora para ajudar o corpo a manter o prumo.

Quem mantém o corpo equilibrado, resistindo à gravidade que convida ao chão, é o sistema neuromuscular, guiado por três sentidos: a visão, a propriocepção (o sentido das articulações e músculos) e o equilíbrio. Ocorre que os três deterioram com a idade, seja por perda de células sensoriais ou apenas de acuidade. Como se não bastasse, o tônus muscular tende a diminuir, o que dificulta o trabalho de manter o corpo no eixo, e a massa do corpo tende a aumentar com o acúmulo de gordura e o sedentarismo. Tudo isso faz com que o corpo se pareça cada vez mais com uma batata espetada sobre dois palitinhos passivos, cuja tendência natural é... cair. Daí o tempo cada vez menor que conseguimos nos manter sobre um pé só (experimente, prestando atenção em todos os ajustes que seu pé fará para manter o corpo sobre o eixo).

Considere agora que ao andarmos passamos 80% do tempo equilibrando o corpo sobre apenas um dos pés – ora um, ora o outro –e você verá que, com a idade, andar vai se tornando uma tarefa difícil e perigosa, e os tombos, cada vez mais freqüentes. Não é à toa que quedas são a segunda maior causa de morte acidental no mundo.

Tudo isso, no entanto, é evitável. Mesmo se a perda sensorial não puder ser evitada ou revertida, hoje se sabe que exercícios físicos regulares, sapatos de solas finas, caminhadas em terrenos irregulares e instáveis como areia fofa ou cascalho, dança e até mesmo jardinagem ajudam o cérebro a usar melhor a informação que ainda tem sobre a posição do corpo e manter o prumo. Até a simples prática de se equilibrar em um pé só já melhora o equilíbrio. Pode soar óbvio mas, como o cérebro teima em só manter funcionando o que é de fato usado, já avisei à minha avó: para continuar conseguindo andar, é preciso continuar andando...


Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em dezembro de 2007

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O sexto sentido