Batuque de carnaval

Eu sou daquelas que se escondem no carnaval e lamentam a perda da liberdade de ir e vir enquanto centenas de milhares de foliões bloqueiam as ruas, latinhas de cerveja em punho. Mas tem uma coisa do carnaval que eu adoro: a bateria das escolas de samba.

A sensação que se tem da arquibancada bem em frente ao recuo da bateria, que é onde eu estava no domingo, é de que é impossível ficar parado. Ao invés de ser considerado apenas ensurdecedor, o som grave e intenso coloca o cérebro quase que em transe. Curiosamente, esse prazer do carnaval é devido não à audição, mas a seu vizinho de ouvido, tão desprezado: o equilíbrio.

O que nos mantém em pé é a habilidade de monitorar a posição da cabeça, graças a sensores vestibulares de movimento situados no labirinto, dentro da mesma caixa óssea nos seus ouvidos que contém a cóclea auditiva. Além de vizinhos, os sensores de som e de posição da cabeça respondem ao mesmo estímulo: a deformação mecânica de pequenos “cabelinhos” nas células receptoras.

Normalmente, as intensidades de som que movimentam os “cabelinhos” dos receptores auditivos não fazem nem cócegas nos receptores vestibulares, que têm outra faixa de sensibilidade. Por isso, no dia-a-dia, quem cuida de sons é a apenas a cóclea, e portanto a audição.

Mas tudo muda na frente de uma bateria de escola de samba (ou orquestra, baile funk ou sua rave favorita). Como mostrou Neil Todd, pesquisador da Universidade de Manchester, no Reino Unido, sons graves (abaixo de 200 Hz) e fortes o suficiente (acima de 90 dB, comparáveis a uma furadeira ou caminhão na estrada), como a levada dos surdos e caixas, conseguem estimular ambos os tipos de receptores, auditivos e vestibulares. Resultado: seu cérebro recebe o sinal de que você está se movendo no ritmo da música. Daí a começar a se mover de fato no ritmo da música, incorporando a atividade vestibular, é um pulinho. A bateria de fato sacode seu corpo.

E ainda é prazerosa – quer dizer, para aquelas pessoas que gostam de estimulação vestibular, como balanços e montanhas-russas. Até 90 dB, sons graves mais fortes são apenas cada vez mais irritantes – mas, assim que começam a estimular o sentido vestibular, sons graves voltam a ser prazerosos (enquanto os agudos só ficam mais desagradáveis). Por isso não dá para ouvir baticum – ou qualquer música cheia de graves - baixinho. Ou é alto, ou não tem efeito.

Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em fevereiro de 2014.

Anterior
Anterior

Muitos neurônios associativos tornam corvos inteligentes

Próximo
Próximo

Memória externa