Memória externa
Franceses e americanos desde pequenos aprendem de cor, na escola, poesias e frases de abertura dos livros de seus maiores autores. Não aprendi nada disso; nosso sistema educacional não é muito fã de “decoreba”. A única poesia que conheço de cor, além da batatinha-que-quando-nasce-se-esparrama-pelo-chão, é Tabacaria, de Fernando Pessoa, que decorei inteira na adolescência, quando longas viagens de ônibus em grupo para fazer travessias eram animadas por sessões de declamação.
O “não decorareis” ganha ainda mais adeptos em nossos tempos modernos de memória externa: para que decorar um telefone, endereço ou compromisso, se a memória do celular o quarda para você? Para que decorar fatos e datas, se o Google e a Wikipedia os têm à sua disposição (em versões aceitas por uma, dezenas, ou milhares de pessoas)?
Eu entendo – e acho uma lástima o desprezo moderno pela memória interna. Claro, não é preciso chegar ao exagero do escritor americano A.J. Jacobs, editor da revista Esquire, que se propôs a ler a Enciclopédia Britânica inteira em um ano “para se tornar a pessoa mais inteligente do mundo”. É verdade que ele tinha um projeto editorial em mente: escrever o divertido livro “The Know-It-All” (O Sabe-Tudo) sobre a sua experiência. Ele notou, é claro, que é impossível guardar em seu cérebro todos os fatos das 33 mil páginas.
E claro que ser uma enciclopédia ambulante não torna ninguém inteligente ou capaz de resolver problemas. Mas ajuda – e esse é o fato desprezado por tantos de nós. Há uma diferença enorme entre apenas decorar-para-fazer-prova e decorar-para-usar-depois. O cérebro sabe fazer a diferença. Informações inúteis, que não causam impacto ou emoção, ficam guardadas apenas uns dois dias. Já as interessantes, que causam surpresa ou algum outro impacto, que são associadas a outros fatos interessantes do seu repertório, que logo começam a ser usadas – essas ficam na memória e ajudam (e muito!) não só o seu raciocínio lógico, o reconhecimento de padrões (e das citações abundantes nas literaturas francesa e americana) e a compreensão de coisas mais complexas, como facilitam a própria memorização.
É isso aí: memorizar se aprende... memorizando. E mais: quanto mais se sabe sobre um tópico, mais fácil fica lembrar ainda mais a respeito. Os ricos ficam mais ricos com mais facilidade. A vantagem da memória é que qualquer um pode começar a investir na sua. Todos têm o requisito necessário: um cérebro.
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em outubro de 2009.