Quando se preocupar com a sua memória?
A idade traz experiência, mas também leva consigo algumas características da juventude. A partir dos 20 e poucos anos, a facilidade de memorização de informações novas, de visualização espacial, e a rapidez de raciocínio decaem; as respostas ficam cada vez mais lentas; e, segundo o neurocientista brasileiro Iván Izquierdo, a partir dos 40 começa a decair também a persistência da memória – ou seja, a capacidade de lembrar daqui a dois dias do nome do filme que você viu hoje na televisão.
A única capacidade que parece declinar constantemente a partir da idade adulta, no entanto, é a rapidez de resposta. Memória, raciocínio e visualização espacial declinam depois da adolescência, mas lá pelos 35 anos estacionam e ali permanecem até pelo menos os 60 anos. O mais importante, contudo, é que ficar cada vez mais lento dos 20 e poucos até os 60 anos não significa ficar lento demais para funcionar; da mesma forma, já não ter a memória tão boa quanto um dia foi é bem diferente de não ter memória alguma. Além do mais, tudo o que diz respeito à habilidade de lidar com informações adquiridas, inclusive expressando-as em palavras, melhora com a idade. A "experiência", eufemismo comum (mas correto!) para o envelhecimento, tem suas vantagens.
A redução da capacidade de memorização e o aumento do esquecimento são, portanto, considerados normais. Mas até que ponto? Quando é hora de se preocupar com o declínio da memória?
Uma boa regra geral é: “quando ele passa a perturbar a sua vida”. Não lembrar do nome do filme de dois dias atrás é inócuo; esquecer sistematicamente compromissos, o número do seu telefone ou o seu endereço não é. Perdas súbitas de memória também valem uma visita ao neurologista. Passar os dias achando que sua memória está desaparecendo também conta como “perturbar sua vida”, e vale a ida ao neurologista para tirar a dúvida – porque a própria preocupação com a memória pode perturbá-la: hoje se sabe que o estresse crônico é um grande inimigo do cérebro e da capacidade de memorização. Além do mais, várias vezes o problema “de memória” é na verdade falta de atenção...
Soa ruim saber que sua memória não será a mesma por muito tempo? Veja por outro lado: quem sabe que começa a envelhecer cerebralmente tão logo sai da adolescência pode começar logo a se cuidar. Nada de esperar pela terceira idade para começar a fazer exercícios físicos e aprender coisas novas. A saúde da sua memória começa já!
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em novembro de 2009