Repleta de memórias enquanto dure
Comprei um caderno artesanal lindo, enorme, em Sydney, contando usá-lo para fazer um álbum de fotos com anotações. Logo depois, contudo, fui apresentada ao iPhoto, que resolveu meu desejo de organizar e comentar fotos impressas. Que fazer então com meu belo caderno?
Resolvi transformá-lo na minha versão de outro caderno que vira por lá, este grosso, em papel bíblia, chamado My Life: um registro ao longo da vida - bom, da que me resta - das minhas melhores memórias, das imagens mais impressionantes que vi, músicas favoritas, pratos prediletos, shows e concertos, eventos marcantes, atualizado permanentemente.
Soa quase infantil, eu sei. Além disso, não é para registrar memórias que serve o cérebro? Idealmente, sim. Mas nem todas as memórias permanecem; as que não são revisitadas com frequência aos poucos vão se perdendo, cedendo lugar a outras, talvez. O registro externo é um aide-mémoire, como dizem os franceses, uma ajudinha para, daqui a uns anos, eu lembrar melhor e com mais detalhes dos eventos que me levaram até ali.
Nós somos, afinal, o somatório não só desses eventos, mas também do registro que deles fica no cérebro, acessível à recordação consciente. Daí vem a individualidade: da história particular de vida de cada um, agindo, claro, sobre a biologia do cérebro como ponto de partida e base ao longo do tempo.
Por isso a doença de Alzheimer é tão devastadora: porque, ao apagar a memória autobiográfica, desfaz a história pessoal, e assim dissolve o indivíduo. A fase mais dura, para quem adoece, é aceitar o prognóstico do esvaziamento do seu álbum de fotos mais íntimo. Para quem testemunha o processo, contudo, o pior só vem mais tarde, quando é preciso aceitar que a pessoa que habitava aquele cérebro já não está mais ali, e passar por um processo paradoxal de luto em vida.
Donde minha vontade de começar logo a registrar por escrito (em frases curtas, só para um dia lembrar dos assuntos, porque afinal tenho mais o que fazer!), e talvez com uma ou outra foto, aquelas memórias às quais hoje ainda tenho acesso fácil. Assim, quando mais tarde me venham procurá-las quem sabe o tempo, angústia de quem vive, quem sabe o Alzheimer, fim de quem ainda é, eu possa me dizer da vida (que tive): que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja plena e repleta de memórias enquanto dure.
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em maio de 2011