Tranquilidade
Toda vez que eu tenho um zilhão de afazeres na lista do dia eu lembro de como, cansaço à parte, prefiro que seja assim: não gostaria de não ter nada para fazer, permanentemente. Acho o ócio criativo somente quando ele é a exceção. Mas ah, a paz interior. Ah, não ter que fazer nada, por pelo menos uma horinha por dia.
Um pouco de tranquilidade a cada dia faz um bem danado. Cada um tem suas preferências e definições pessoais para a tranquilidade, claro. De modo geral, contudo, a neurociência define tranquilidade como um estado mental de relaxamento cognitivo, em contraste a estados de esforço mental constante, cansativos, que são característicos das atividades diárias da vida moderna. Esse estado mental tende a acontecer na presença de ambientes naturais, sem marcas óbvias do construções humanas, como prédios, estradas e ruído de tráfego.
Se a tranquilidade é um estado mental, a que ela corresponde? Para responder a esta pergunta, uma equipe no Reino Unido pediu a voluntários que assistissem a vídeos diferentes, de cenas de praias ou de rodovias, de dentro de um aparelho de ressonância magnética, e avaliassem quanta tranquilidade elas lhes inspiravam, enquanto seu padrão de atividade cerebral era registrado pela equipe. A escolha de praias e rodovias tinha razão de ser: enquanto as imagens são diferentes, o som é semelhante, de amplo espectro, quase desestruturado.
A equipe descobriu que, em comparação com o estado mais inquieto, vendo rodovias, o cérebro tranqüilo, vendo praias, associa seu som a uma integração funcional maior das estruturas da “rede padrão” do cérebro. A “rede padrão” é um conjunto de estruturas corticais bem separadas umas das outras, envolvendo sobretudo a região medial do córtex pré-frontal, na frente, e o cingulado posterior, atrás, que estão mais ativas quando o cérebro faz... nada em particular. Mais especificamente, a atividade nessas regiões predomina quando a mente está voltada “para dentro”: para si mesma, e não dando atenção a estímulos externos.
Faz sentido, então, que o estado de tranquilidade corresponda a uma maior integração funcional entre as estruturas da rede padrão, consolidando o cérebro em um estado que prioriza a si mesmo. Assistir a obras feitas pela mão humana exige que o cérebro se concentre no mundo exterior. Mas, pelo jeito, ver obras da Mãe Natureza permite que o cérebro se volte para dentro e sossegue.
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em setembro de 2013