Estimulantes para o déficit de atenção
Escrevi aqui semana passada que o déficit de atenção é um transtorno real, que afeta, em graus variados, de 0.5 a 5% das pessoas, dependendo dos critérios utilizados no diagnóstico (no Reino Unido, onde os critérios são mais estritos, a incidência parece mínima; nos EUA, onde o diagnóstico é mais liberal, a incidência parece duas vezes maior).
Como tantos transtornos, o déficit de atenção também é para o resto da vida, e portanto não tem cura, apenas tratamento. Se soa ruim, eu diria que (1) o tratamento existe (não é ótimo?), e (2) ele é tão eficaz que muita gente por aí quer usá-lo sem ter necessidade. Trata-se de ou metilfenidato ou anfetamina – e é aqui onde vários pais cruzam os braços e começam a suspeitar do médico que quer dar estimulantes para seus filhos.
O primeiro impulso de resistência é compreensível. Afinal, estimulantes são drogas pró-dopaminérgicas, como a cocaína, que estimulam não só o córtex pré-frontal, tão importante para a atenção, como também o sistema de recompensa – daí seu potencial de dar “barato” e assim levar ao vício. Mas não é isso que o tratamento faz.
Como o transtorno vem justamente de uma necessidade de dopamina, doses baixas de metilfenidato ou anfetamina apenas trazem o cérebro de volta ao nível normal de funcionamento. É nesse momento que os pacientes descrevem uma sensação “mágica” de tranquilidade, como se o mundo finalmente parasse de pular ao seu redor e sossegasse. Ler um texto até o fim é subitamente trivial, sem dez pensamentos competindo com cada palavra ao mesmo tempo. Fazer uma prova torna-se possível.
Mais importante, contudo, é uma diferença entre esses estimulantes e drogas como a cocaína que faz com que o efeito “recreativo” dos estimulantes seja muito menor. Ingeridos em comprimidos, ou absorvidos pela pele, metilfenidato e anfetamina agem aos poucos e levam uma boa dezena de minutos para surtir seus efeitos – tanto sobre a atenção quanto sobre a motivação. Sem o coice dopaminérgico propiciado, em comparação, pela inalação de cocaína, a chance desses estimulantes de ação lenta darem “barato” é mínima. E sem barato não há vício.
Aos pais hesitatantes, portanto: se há uma necessidade real – e o diagnóstico precisa ser muito bem feito -, tratar seus filhos com estimulantes não é viciá-los, e sim dar-lhes a oportunidade de uma vida normal.
Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em fevereiro de 2013