Um déficit legítimo de atenção

Sim, há quem seja preguiçoso, desinteressado ou desorganizado, com mau desempenho nos estudos e no trabalho, seja por falta de oportunidade ou de orientação, dificuldades variadas da vida, estresse, ou até falta de caráter, mesmo. Mas há crianças – e adultos – que parecem assim por carregarem em seu cérebro uma dificuldade intrínseca em fazer o que, para todos os outros, é apenas normal: se concentrar em uma tarefa de cada vez, ignorando distrações ao redor.

Essas são as pessoas que sofrem de uma legítima síndrome de déficit de atenção. São de 0.5 a 5% da população, dependendo dos critérios diagnósticos empregados. De maneiras ainda não completamente compreendidas, o transtorno envolve uma deficiência de dopamina, um dos moduladores que regulam nossa capacidade de considerar um evento importante, dedicar a ele nossa atenção, e nos empenhar em seu processamento.

Não é surpresa, portanto, que essas pessoas sejam facilmente distraídas, sucumbindo a qualquer novidade que passar pela frente ao invés de se concentrar no trabalho ou dever de casa. Por causa dessa dificuldade de sustentar a atenção, ler um texto até o fim é uma tarefa que pode durar horas e se tornar desmotivante, levando a desinteresse e uma aparência de preguiça, dificuldade de memória e de aprendizado.

Pior ainda, para a criança que sofre desse déficit, é a falta de informação dos pais, que reclamam de um comportamento que não depende de escolha da criança. Retorno negativo, na forma de comentários do tipo “você é preguiçoso” ou “você não está se esforçando”, só fazem criar uma auto-imagem ainda mais negativa, daquelas que se tornam profecias auto-realizáveis.

Por sorte, existe tratamento. Terapia puramente comportamental ajuda, ensinando a criança a ter disciplina e escolher ambientes mais favoráveis a ela. Muitas vezes, contudo, o melhor tratamento inclui remédios, com estimulantes como o metilfenidato e anfetaminas.

E aqui está outro problema causado por falta de informação. Para muitas dessas crianças – e adultos, pois o déficit de atenção é para o resto da vida –, o remédio é o passaporte para a vida “normal” que os outros conhecem, onde ler um parágrafo é tarefa trivial, e provas levam uma hora, não três. No entanto, pais demais relutam em tratar seus filhos com estimulantes.

É uma relutância compreensível, mas desinformada. Por quê? Semana que vem eu explico.


Extraído de Suzana Herculano-Houzel (2025) Neurociência da Vida Comum, originalmente publicado na Folha de São Paulo em janeiro de 2013

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